❂ ✫ Parlenda ✫ ❂




Um dia eu saí pelo mundo, caminhando sem eira nem beira e, bem no meio da estrada, encontrei um bando de amigos que riam e brincavam juntos, repetindo palavras em conjunto...

Eu fui por um caminho...
Eu também
Encontrei um passarinho...
Eu também
Encontrei um dedo mindinho...
Eu também
Seu-vizinho,
Eu também
Pai de todos,
Eu também
Fura-bolos,
Eu também
Cata-piolhos.
Eu também

Eu quis participar da brincadeira e recitei:

Batatinha quando nasce...
Espalha a rama pelo chão.
Menininha quando dorme...
Põe a mão no coração.

Eles gostaram do meu versinho e me convidaram para seguir caminho. Fomos andando devagarzinho, recitando bem baixinho...

Um, dois, feijão com arroz.
Três, quatro, feijão no prato.
Cinco, seis, chegou minha vez.
Sete, oito, comer biscoito.
Nove, dez, comer pastéis.

De repente, passou um homem correndo. Levei um susto quando ouvi alguém dizendo:

Rei
Capitão
Soldado
Ladrão
Menino
Menina
Macaco
Simão

O homem que corria olhava para trás e ria, ao mesmo tempo que nos dizia:

Sola, sapato,
Rei, rainha.
Onde quereis
Que eu vá dormir?
Na casa de mãe
Aninha.

De repente, o homem sumiu, e, subitamente, chegamos numa casa diferente, onde tudo parecia infrequente. Pensei que tinha ficado até doente. Senti tanto sono que perdi a fome e até esqueci meu nome. Mas, quando eu quis adormecer, me mandaram obedecer, declamando:

Hoje é domingo,
Pé de cachimbo.
Cachimbo é de barro,
Bate no jarro.
O Jarro é de ouro,
Bate no touro.
O touro é valente,
Bate na gente.
A gente é fraco,
Cai no buraco.
O buraco é fundo,
Acabou-se o mundo.

Eu lhes disse que estavam errados, que aquilo era esquisitice, porque o domingo nem tinha chegado:

Amanhã é que é domingo,
Pé de cachimbo.
Galo monteiro
Pisou na areia.
Areia é fina,
Que dá no sino.
O sino é de ouro,
Que dá no besouro.
O besouro é de prata,
Que dá na barata.
A barata é valente,
Que dá no tenente.
O tenente é mofino,
Que dá no menino.
O menino é danado,
Que dá no soldado.
O soldado é valente,
Que dá na gente...


Ninguém me ouvia, ninguém me compreendia. Era hora do jantar, ninguém queria saber de esperar. E a cozinheira, em lugar de cozinhar, só sabia provocar:


Eu estou fazendo papa!
para quem?
Para João Manco.
Quem o mancou?
Foi a pedra.
Cadê a pedra?
Está no mato.
Cadê o mato?
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu.
Cadê o boi?
Fui buscar milho.
Para quem?
Para a galinha.
Cadê a galinha?
Está pondo.
Cadê o ovo?
O padre bebeu.
Cadê o padre?
Foi dizer missa.
Cadê a missa?
Já se acabou.

Sentei-me à mesa e pedi um salgado, mas eles só tinham um feijão aguado. Pedi doce, como se nada fosse, dizendo-lhes assim:

Um dia, o doce perguntou ao doce
Qual era o doce mais doce.
E o doce respondeu ao doce
Que o doce mais doce
É o doce de batata-doce.


Estranhei minhas próprias palavras: será que estava ficando maluca? Ou tinha virado biruta? Será que eu estava ficando chata? Eles riam de mim e cantaram assim:


No morro chato
Tem uma moça chata
Com um tacho chato na cabeça.
Moça chata, esse tacho chato é seu?


Fiquei brava, fiquei tonta, mas, quando vi, já tinha dito estas palavras:


Se a liga me ligasse,
Eu ligava a liga.
Mas, como a liga não me liga,
Eu não ligo a liga.


Comentários

Postagens mais visitadas